quarta-feira, 14 de maio de 2008

O samba em comunidade...

Interessante ver o cenário atual do samba de São Paulo. Pela terra da garoa o gênero vem concentrando muitas comunidades... é a onda do momento: Comunidade de Samba.

Comunidade no dicionário é vocábulo de muitos significados, um deles é "grupo de pessoas que comungam da mesma crença ou ideal", ou ainda "qualidade ou estado do que é comum: comunhão". A idéia quando trazida ao samba, perdeu um pouco do sentindo com o rumo que está tomando.

Alguns anos atrás, quando um grupo de pessoas funda o Mutirão do Samba, não imaginavam que seria o embrião deste forte movimento. Dali sairam ideais e idéias diferentes que disceminaram em comunidades e projetos também diferenciados. O Projeto Nosso Samba, que reparem, não leva o nome de comunidade, porém em seu ritual, age em comunhão e é local de pessoas que tem o mesmo ideal, mantém uma tradição de roda de samba muito diferenciada do que vemos por ai. A Roda respira e transmite respeito, os instrumentos, as pastoras, o repertório, dá ao projeto uma autenticidade e uma singularidade fantástica.

La para os lados da Zona Sul de São Paulo, está a mais conhecida comunidade de samba de São Paulo: o Samba da Vela. "Amadrinhados" pela controversa Beth Carvalho, a roda gira em torno de seus fundadores. A vela é acesa dentro de um patrimônio tombado da cidade, que é a Casa de Cultura de Santo Amaro. Casa de escravos, o local é cercado de magia, e ali o silêncio e a exaltação ao compositor ditam as regras da casa.

Com diretrizes completamente diferentes, esses dois grupos abriram portas e desencadearam o movimento de hoje. Surgem dezenas de projetos e comunidades que tem no discurso "carregar" a bandeira do samba. Além de ser um clichê, é inverossímil.
Os muitos movimentos que São Paulo tem espalhado principalmente pelas periferias da cidade, não carregam a bandeira do samba. Eles carregam os ideais, as alegrias, algumas vezes frustações e ainda pior, ambições daqueles que fundaram. O samba é figura principal nesse contexto, mas também nem sempre é feito com características que indiquem ser ali, um reduto de samba autêntico (que me perdoe o trocadilho, que me faz lembrar de um movimento pífio, de um fundador hipócrita). A comunidade de samba, tem um cunho social mais forte do que propriamente o clichê que comentei.

São fomentadoras de espaço, e dentro desta concepção surge o samba daquela gente. O modo das rodas, o batuque, de receber as pessoas, os rituais, são caracteristicas únicas que vão agradar e desagradar.

Não carregam a bandeira do samba. Isso hoje em dia, não existe. Eles carregam sim, seus costumes e seu modo de fazer samba, junto à sua gente. A importância que se dá ao samba como gênero musical, de história sofrida, negra, de um passado marcado, de um ritmo brasileiro, de sonoridade singular, de instrumentos, é a partir da escolha de cada comunidade ou projeto. Se o samba fosse único, e se o que ouvíssemos por ai fosse igualmente único, poderíamos dar a bandeira do samba às comunidades. Mas será que existe bandeira?

Fico com receio quando vejo que ter uma comunidade ou projeto é status. Dá ao seu fundador um poder que usado de maneira errada, pode sugerir um sentido errado a todo esse movimento. A comunidade de samba é sim produto comunitário seja ele de dois ou mais individuos, e utiliza o samba como forma de agregar e fomentar espaços. Fazer com que isso seja diferente, evoca uma erronea idéia massificadora.

Enquanto o samba for benéficie dos tantos projetos e comunidades, estaremos a salvo. Mas quando os caminhos não forem esse, ou influências contrárias, midiáticas, ideais corrompidos, o cenário é mais uma vez desolador, para o já tão danificado samba de São Paulo.